
Não são apenas pigmentos que eu vejo quando olho para as tintas, que fique claro. São correntes elétricas na água, aquelas que fazem surgir as primeiras formas de vida, aqueles fluxos criadores que, aos poucos, originarão alma, consciência, sonhos e a destemperada loucura com a qual eu gosteria- espere, gosto- de enfeitar meus dias.
- Pintando outra vez, Carolina?- ele me diz quando abre a porta.
Eu rio, e já houve um tempo em que eu me enfureceria. Carolina, Carolina, quem esse homem pensa que é para ser assim tão formal? E essa história de para todo o sempre na saúde e na doença, como é que eu fui assumir uma coisa dessas com um homem que não sabe respeitar ou sequer imaginar esse estado de isolamento obsessivo que me toma com as tintas e que ele quebra com tanto desprezo, com risos, outra vez como se fosse um mero hábito excêntrico da minha parte. Já houve um tempo em que eu me enfureceria, em que uma parte de mim morreria por dentro. Mas não mais.
- Já desço pra gente ver a janta, Paulo, só falta ajeitar um pouco o esquema, minhas árvores tão com azul demais.
Esse é o tipo de comentário que eu faço para que ele se sinta devidamente alienado, e que funciona. Paulo sorri, passa uma mão no meu cabelo, me dá um beijinho na bochecha e me diz então tá, te espero lá embaixo e já vou agilizando o arroz que aí quando tu chegar é só botar a carne pra esquentar.
Como é que eu fui casar com um homem assim? Com um homem dessa vida doméstica, miúda, chata, sempre numa bem-vinda ignorância do fato de que o mundo, o mundo de verdade, está tão além do quintal de gramado verde e do carro flex que é mais ecologicamente sustentável e das compras no supermercado da esquina? Eu sempre achei que jantar com o homem da minha vida seria uma coisa louca, música alta e massas bizarras, bagunça na cozinha, vinho barato, comer amarrotados no sofá, quase engasgando de tanto rir, as janelas abertas. Sorver cada gota de todo aquele gosto de vida que emana de nós, por dentro.
Daí é que surgiu o gosto pela pintura, repentino, nunca tinha pegado tinta e pincel na vida, Paulo nesse amorzinho cego de primário nem questionou, só sorriu. E eu preferia que ele gritasse, como sem dúvida gritaria se soubesse o segredo:
Cada um daqueles quadros que atulham o meu atelier (antigo quarto de hóspedes) é um retrato, independente do que mostre. E cada retrato é alguém por quem eu me apaixonei perdida e instantaneamente. Pessoas que me cativaram daquela maneira absoluta como só os ingênuos sabem cativar, e a quem, apenas por conta de um momento- o caminhar manco, o guarda-chuva entortando, o sorriso de lado, a dancinha quando toca música boa nos fones, o tropeçar no meio-fio- eu entreguei meu coração completamente.
Homens e mulheres e idosos e crianças e, e,- todos! Parece que cada pessoa que passa na rua tem eletricidade própria, vinda dos sonhos, dos desejos, dos medos que são únicos de cada um. Uma força que me fascina.
Cada pessoa tem um sol secreto dentro de si.
Antes Paulo me deixava zangada, mas hoje eu apenas sorrio, me tranco no ateliê e ilustro sol após sol- coleciono magias e afetos até que o vazio da vida seja anulado pelo que eu pude observar, e criar.
Paulo diz que me ama; Paulo ama uma ilusão, ele não faz ideia de quem eu sou de verdade, não conhece os sóis secretos, meus, dele.
Respiro fundo, sorrio de leve e, com um último olhar para a janela, pouso o pincel e vou esquentar a carne no forno pra janta.