o outro preço

08/12/2009 - Deixe seu recado!

Sonhar é gratuito, mas querer o sonho custa coragem.

E eu digo pra mim mesmo que é suficiente uma mulher bonita pra umas trepadas ocasionais e um cineminha romântico toda noite de quarta-feira, que não preciso de um amor de verdade, que me tire o fôlego, que faça meu coração martelar, que me aceite do jeito que eu sou inclusive com o ronco de madrugada e as ligações que eu faço todos os dias sim senhor, oi amor, como vai.

Eu digo pra mim mesmo que só preciso pagar as contas no fim do mês e não ir dormir de consciência pesada, que não preciso daquela sede, daquela ânsia passional que a profissão me despertou de início, que não preciso de fortuna, de reconhecimento, que não quero um terno novo ou um relógio de ouro.

Eu digo pra mim mesmo que só quero cuidar da saúde, não ter o colesterol alto, me sentir um pouco melhor nas minhas roupas e na minha pele, e que não quero ser o melhor, que não quero atingir a perfeição, que não quero me sentir esbelto, forte e poderoso, que não quero ser capaz de fazer com meu corpo as coisas belas e fascinantes que os bailarinos, acrobatas e nadadores fazem.

E eu digo pra mim mesmo que desenhar é hobby, que filhos só depois dos trinta, que é melhor jantar só um sanduíche, que pelo menos daqui a pouco as férias vêm chegando, que não preciso de um amigo, que não estou atrás de namorada, que animal de estimação não porque eu sou alérgico.

Eu digo pra mim mesmo pra esperar. Amanhã aparece alguém, semana que vem eu ponho as leituras em dia, mês que vem eu faxino os armários, ano que vem eu aprendo Cantonês, algum dia eu viajo, um dia ainda vou morar longe. Mas não hoje que tem trabalho, não amanhã que tem academia, não esse fim de semana que tem chopinho com a galera do futebol. Amanhã ou quando passar a dor de cabeça ou depois do fim do mês ou quando fizer sol.

Mas aí é que eu levanto a cabeça, olho pela janela pro lado de fora e vejo todas as luzes da cidade grande, e lembro que são todas pessoas e que a maioria também diz a si mesma que não faz questão do que sonha. E eu inspiro fundo, e volto a lutar.

Sonhar é gratuito, mas querer o sonho custa coragem.

a casa de dentro; fragmento inicial

26/11/2009 - Deixe seu recado!

Eu lembro que cresci com uma mãe de vestidos floridos, daquelas que faziam doce e penduravam quadros (mas era comportada demais pra fazer quadros; comprava prontos). Parecia que na casa onde eu morava com a mãe e o Lúcio estava sempre prestes a cair uma garoa fina, daquelas que não impedem a rua mas impelem à casa, das que me deixavam manhosa me enrolando em edredons mesmo que eu não sentisse frio algum.

Mas se não me engano teve um tempo bem curto, uma ou duas semanas quando eu tinha lá pelos meus dez anos, que a mãe parou tudo. Parou de bordar os vestidos, parou de fazer doce, parou de regar as plantas. A gente ficou num limbo, cuidados meio relutantemente ora por uma tia, ora por um vô, e quando a mãe voltou ela parecia mais velhinha, mais cansada, mais suspirante, mas deu um enorme sorriso e explicou.

Às vezes, crianças, a gente tem que largar mão das paredes da casa pra lembrar de fazer a casa de dentro.

febre

25/11/2009 - Deixe seu recado!

Eu me embrulho em camada após camada de roupa mas tudo à volta continua me fazendo tremer, eu fico vermelha, suo, bato os dentes. Morar sozinha, completamente sozinha, tem dessas: ninguém pra trazer um remédio, ninguém pra aconselhar que eu deite ou tome um banho, ninguém pra me dizer já vai passar. Não só no espaço físico da casa, mas na outra casa, a de dentro: ninguém pra telefonar.

Você é frio, é o que eu gostaria de acreditar, mas mesmo eu, tão militante da inescapabilidade dos pontos de vista e da inexistência da verdade, tenho que admitir que não posso dizer isso de você sem incorrer em uma mentira e, no que é pior, numa injustiça. Você é um sol.

Comigo foi sempre bom, e com todos os nossos amigos (não apenas os seus), e com os desconhecidos na rua e com os cachorros e as crianças. Existe alguma coisa mágica, você dizia, nos olhos de cachorros e crianças. E eu adorava me recostar toda contra o teu corpo e inalar profundamente porque você emanava calor e um cheiro de calor, de forno a lenha, de leite e nescau, de pão de padaria ou de um banho que derrete a pele da pessoa e a amolece até os ossos.

A casa está completamente insalubre, trancada e fechada, abafada, já cheirando a dias de suor e respiração morna. Tudo cai pra um canto e lá fica, as minhas pernas tremem demais pra que eu me disponha a fazer qualquer coisa. Nem toca mais música, música alguma.

Tem dias agora em que eu queria poder dizer que você era frio, e aliás de modo geral eu lembro você mais frio do que era, até que um daqueles momentos de calor inigualável me escorrega entre as densas barreiras que eu formo pra te tirar da minha mente, e eu entro em choque e choro. Até hoje você é simpático comigo, e cordial e bom.

Era eu que era fria? Eu espero que não. Eu sei que as minhas mãos eram, sempre se enfiavam geladas na tua nuca (que era, eu logo descobri, o lugar mais quente), eu sei que o meu corpo era gelado, árido, infértil e quase hostil. Eu sei que era cruel, às vezes, que te ouvia pouco, que te dava ordens, que tinha tristezas e te fazia só me dar colo. Mas fui eu a primeira (a única talvez?) pessoa a te abraçar do alto de uma escadaria e sussurrar “te amo” tão baixo que nem eu acreditei que tinha dito, pra ouvir tua resposta igualmente baixa como um sussurro no vento e o meu coração mergulhar e quase morrer. Era grande e doce meu amor por ti e meu desejo de te embalar pra sempre e sussurrar pra ti todas, todas as músicas que eu aprendi a vida inteira, e pentear com os dedos o teu cabelo áspero.

Congelando aqui. Eu tinha é que me levantar e ir ficar imersa num banho pra gelar a pele aos poucos e voltar ao normal, mas a cabeça pesa demais e se eu levantasse o resultado mais provável seria ficar tonta e vomitar e/ou perder o equilíbrio na banheira, começar a alucinar e finalmente morrer afogada. Céus, quanto drama, e drama bem desagradável, sem damas vestidas de renda preta, rosas com uma gota de sangue no espinho ou milagre divino.

Se não era eu fria, e se não era você, o que era frio? Como é que o final foi daquele jeito? Como é que eu me tornei cruel e você se tornou alienado, como é que eu vi a dia e chuva, noite e sol, sem me perguntar se você estava feliz, se você estava seguro? Como é que você me abandonou daquele jeito?

Ou fui eu que abandonei, antes ou depois, de outras maneiras?

Olha só, já estou falando com você como se você não estivesse já frio, frio da terra (ou mais perto do centro da terra é mais quente?) e como se essa história já não estivesse mais que morta. Tendo alucinações. A febre deixa tudo gelado demais pra pensar, e no entanto eu nunca tive a pele quente e acho que mesmo agora não tenho, acho que estou morrendo. Mas se o resto da vida for assim, tão cheio dessas temperaturas desagradáveis, isso até não seria tão ruim.

sóis secretos

08/11/2009 - Deixe seu recado!

Não são apenas pigmentos que eu vejo quando olho para as tintas, que fique claro. São correntes elétricas na água, aquelas que fazem surgir as primeiras formas de vida, aqueles fluxos criadores que, aos poucos, originarão alma, consciência, sonhos e a destemperada loucura com a qual eu gosteria- espere, gosto- de enfeitar meus dias.

- Pintando outra vez, Carolina?- ele me diz quando abre a porta.

Eu rio, e já houve um tempo em que eu me enfureceria. Carolina, Carolina, quem esse homem pensa que é para ser assim tão formal? E essa história de para todo o sempre na saúde e na doença, como é que eu fui assumir uma coisa dessas com um homem que não sabe respeitar ou sequer imaginar esse estado de isolamento obsessivo que me toma com as tintas e que ele quebra com tanto desprezo, com risos, outra vez como se fosse um mero hábito excêntrico da minha parte. Já houve um tempo em que eu me enfureceria, em que uma parte de mim morreria por dentro. Mas não mais.

- Já desço pra gente ver a janta, Paulo, só falta ajeitar um pouco o esquema, minhas árvores tão com azul demais.

Esse é o tipo de comentário que eu faço para que ele se sinta devidamente alienado, e que funciona. Paulo sorri, passa uma mão no meu cabelo, me dá um beijinho na bochecha e me diz então tá, te espero lá embaixo e já vou agilizando o arroz que aí quando tu chegar é só botar a carne pra esquentar.

Como é que eu fui casar com um homem assim? Com um homem dessa vida doméstica, miúda, chata, sempre numa bem-vinda ignorância do fato de que o mundo, o mundo de verdade, está tão além do quintal de gramado verde e do carro flex que é mais ecologicamente sustentável e das compras no supermercado da esquina? Eu sempre achei que jantar com o homem da minha vida seria uma coisa louca, música alta e massas bizarras, bagunça na cozinha, vinho barato, comer amarrotados no sofá, quase engasgando de tanto rir, as janelas abertas. Sorver cada gota de todo aquele gosto de vida que emana de nós, por dentro.

Daí é que surgiu o gosto pela pintura, repentino, nunca tinha pegado tinta e pincel na vida, Paulo nesse amorzinho cego de primário nem questionou, só sorriu. E eu preferia que ele gritasse, como sem dúvida gritaria se soubesse o segredo:

Cada um daqueles quadros que atulham o meu atelier (antigo quarto de hóspedes) é um retrato, independente do que mostre. E cada retrato é alguém por quem eu me apaixonei perdida e instantaneamente. Pessoas que me cativaram daquela maneira absoluta como só os ingênuos sabem cativar, e a quem, apenas por conta de um momento- o caminhar manco, o guarda-chuva entortando, o sorriso de lado, a dancinha quando toca música boa nos fones, o tropeçar no meio-fio- eu entreguei meu coração completamente.

Homens e mulheres e idosos e crianças e, e,- todos! Parece que cada pessoa que passa na rua tem eletricidade própria, vinda dos sonhos, dos desejos, dos medos que são únicos de cada um. Uma força que me fascina.

Cada pessoa tem um sol secreto dentro de si.

Antes Paulo me deixava zangada, mas hoje eu apenas sorrio, me tranco no ateliê e ilustro sol após sol- coleciono magias e afetos até que o vazio da vida seja anulado pelo que eu pude observar, e criar.

Paulo diz que me ama; Paulo ama uma ilusão, ele não faz ideia de quem eu sou de verdade, não conhece os sóis secretos, meus, dele.

Respiro fundo, sorrio de leve e, com um último olhar para a janela, pouso o pincel e vou esquentar a carne no forno pra janta.

escuro

27/09/2009 - Uma resposta

Calma, minha amada. Não é escuro lá dentro, nem branco cegante, eu te prometo. Eu não sei como eu posso te prometer uma coisa assim, uma coisa que todo mundo diz que é diferente, que muita gente diz que tem certeza, e putz, eu não tenho certeza. Mas eu te prometo, não é. É da cor do mel, do sol, da grama fresca, dos teus vestidos de renda, dos teus laços de fita.

É por isso que eu te trago assim, com a tua mão na minha, tu com o teu vestido das flores grandes e as tuas sandálias que levantam tranqüilas as nuvenzinhas de pó desse parque. É por isso que eu te vejo brincar com as borboletas, soprar em cataventos, te lambuzar de algodão-doce e rir de leve quando ele gruda no teu nariz.

Aonde nós vamos não há guardião da cripta, caronte da barca, são pedro da chave do céu, anúbis do coração pesado. Não tem anjos com liras, não tem diabos com tridentes, e eu te juro, também não vai ter, nunca mais vai ter, poltrona branca e revista velha das salas de espera dos consultórios. Aonde nós vamos existem aqueles ciclos de sol e lua, chuva e seca que tanto te fazem falta, eu sei que te fazem falta.

Só as nuvens, que hoje não são nem poucas nem muitas, e os teus balões, e a sensação dos nossos corpos deitados e entrelaçados na grama do parque. Já faz uns dois meses que tu sempre tremes um pouquinho e não há camada de roupa que te ajude, já faz um tempo que as tuas madrugadas são insones porque tu te afogas em litros de cafeína e ligas a tevê e o rádio no último volume e acendes todas as luzes, porque mais uma vez tu tens o velho, velho medo de dormir. E eu te trouxe hoje sob a luz. Não precisa se sobressaltar, pode fechar os olhos e não vai ter monstros espreitando por detrás das tuas pálpebras.

Essa terra é fértil, amada, essa grama é alta. Tudo, pássaros, grama, flores, borboletas, árvores, tudo será abastecido por nós, não haverá para nós dois caixões prisões de madeira pesada, vermes e lodo, haverá isso, isso tudo. Minha amada. Minha irmã. Minha melhor amiga. Meu amor de toda a minha vida, as nossas vidas serão eternas nessas vidas do mundo.

A minha mão está na tua e onde tu fores eu irei contigo.

o obituário

20/09/2009 - Deixe seu recado!

Quando falarem da minha vida, por favor, falem do oceano. Não falem dos números estrondosos que eu arrecadei pra empresa, ou pras caridades (aliás aproveito pra dizer uma coisa viu, essas tais caridades são todas corruptas), não falem dos meus pais nem dos meus filhos, por favor, e não falem dos meus homens.

Mas falem sim daquele momento que se define em cinco sentidos, na visão da sucessão das diversas cores, listras sutis de brancos beges e amarelos, azuis profundos claros cinzas em todos os pontos da escala, no cheiro de maresia, infância e liberdade, no gosto de sal na minha boca, na sensação do vento por vezes gentil e por vezes furioso contra a minha pele, no som do rugir das águas e do revoar das gaivotas.

O que havia de tão especial naquele mar, naquele momento, naquele dia? Nada, na verdade. Não era um dia bonito, nem era um dia anômalo, com trovoadas, com marés imponentes, não era movimentado nem estava deserto. Eu não fui com ninguém especial, aliás fui sozinha, e também não foi um retiro espiritual ou coisa assim, estava indo de um ponto a outro, senti vontade de água, resolvi comprar num quiosque e acabei indo até o meio da areia. Não brinquei, não corri, não chorei, não disse a ninguém “me ajuda a olhar!”.

Mas naquele exato instante eu que eu virei a cabeça pra olhar o mar eu senti algo que nunca senti antes e nunca sentirei depois se viver até os mil anos, que foi a efemeridade absoluta. A noção de que não havia nada ali, nada, nada, nada, que seria igual dali a um minuto, a noção de que nada daquilo teria o registro, de que nada seria compartilhado, eternizado, remixado, digitalmente remasterizado com som surround 5.0 e qualidade superior. A noção da existência de uma centelha de sublime nesse mundo efêmero. E esse sentimento também passou, veio e foi muito rápido. Nunca mais voltou, e eu nunca mais vi aquele mar.

Mas o mais precioso das nossas vidas, eu acho, é assim. Quem consegue explicar? Quem consegue registrar? Quem algum dia me entenderia quando eu dissesse que ignorassem tudo aquilo que eu construí e que foi construído à minha volta e revelase que num átimo de sublimação insignificante estava contido todo o pouco sentido que eu encontrei nessa vida? Quem entenderia?

Aqui jaz ela, que morreu afinal. Apesar de índices que apontariam o contrário, na vida ela falhou completamente, porque não encontrou alguém que pudesse estar junto dela e compreendê-la quando ela contemplou o pouco que valeu a pena.

quieto.

19/09/2009 - Deixe seu recado!

Dizem que quem não chora não mama, mas não é verdade, quem não mama é que não chora. O bebê que sente cólica mas não tem uma pessoa que o amamente tem todos os sintomas, menos o choro. Isso eu li em algum lugar, num livro de psicologia da tia, acho. O choro é pra quem ouve.

E tem esse bebê, sempre, nessa minha lembrança. Eu não sei o que há com ele, mas não é cólica, é outra coisa. É a porta fechada e os gritos no quarto do lado, mais alto, mais alto até que o silêncio some completamente e todas, todas as moléculas do ar vibram. É o passar das luzes dos faróis dos carros pelas frestinhas da veneziana se projetando no teto em horas inominadas da madrugada, e o medo de dormir porque dentro dos sonhos tem cobras de várias cores e carros com escovas de dente e todos querem te devorar.  É o abandono, a pequena fome que ninguém percebe direito, as músicas lentas e tristes que desde já têm tom de nostalgia, as paredes brancas e lisas vistas de dentre as grades do berço, um amarelo pálido em lacinhos mofentos e mantas de crochê velho. Esse bebê não chora.

Mas nessa rua que o bebê não conhece  muitos gatos miam, muitos ônibus com a pastilha do freio gasta rangem, muitos pneus cantam, e pra quem passa apressado e só de passagem parece que toda a rua é um longo e agudo gemido e as pessoas apertam o passo e os pedintes vão pra quadra do lado, que tem menos movimento mas pelo menos dá pra arranjar uma nesga de sol pra dormir em paz.

Toda a rua grita o choro que fica contido nessa garganta do bebê que não chora nem mama.

Não sei porque é que aos oitenta e três anos eu fui lembrar duma coisa dessas, lembrar, inventar, eu lá sei, nessas idades limites tudo quanto é fronteira da cabeça se dissolve. Deve ser o efeito colateral de algum remédio, ou então é a minha mente querendo me entreter um pouquinho porque tudo aqui é tão monótono.

Deus, como é quieta essa rua!

quarto de hotel

06/09/2009 - Deixe seu recado!

“Eu te amo,” ela disse em tom defensivo, refutando a acusação dele do contrário.

“Quando eu estou bem,” acrescentou logo em seguida, como que admitindo, nem que fosse em parte, aquilo que o outro dizia “quando eu estou bem eu te amo mais do que tudo”.

E ele, furioso.

“E no resto do tempo?”

Ela baixou a cabeça, o cabelo pendurado de qualquer jeito, sem realçar beleza alguma.

“No resto do tempo eu não tenho condições de amar ninguém.

Mas quando eu consigo amar, é a ti acima de quaisquer outras coisas”

da existência do mar

04/09/2009 - Deixe seu recado!

Donatela, minha filha de rosto redondo igual ao da mãe, mas com cabelo de cachos ruivos como os meus, de sardas como as minhas e de olhos castanhos como os meus e que brilham com uma luz pura tal qual nunca vai emanar do meu olhar. Minha filha que eu criei de todas as formas, e por todos os dias. Eu sinto dizer que coloquei você em um mundo cruel. Nós não acreditamos mais em vocês que vem adiante. Passamos anos no subterrâneo, e nos esquecemos do mar. Existe um futuro, Donatela. E existe um mar.

Certa vez, um homem sábio disse que um homem não pode se banhar duas vezes no mesmo rio, porque na segunda vez, o rio não será o mesmo… e nem o homem. Você é nova ainda para entender. Mas ponha os pés na água do mar, Donatela. Ah, você não porá, você tem medo, o medo que era da sua mãe e que sem querer passou pra você. Mas vamos, tente. Só por um instante, eu estou aqui, tente enquanto ainda pode confiar em mim.

Sorrateiramente, lentamente, centímetro a centímetro, se aproxime dessa grande massa azul e verde que se estende até muito além de onde a vista alcança. E também aos poucos, à medida que a água cristalina brinca de lamber os seus pés e depois voltar correndo, permita que o seu medo dê lugar àquele riso puro e bom das crianças pequenas. E agora, você é a mesma? Claro que vai achar que sim.

Errado! Agora você está um pouquinho mais velha, passou mais tempo andando por esta terra, agora você tem areia, sal e água marinha no corpo, bochechas mais coradas, olhos mais rosados, e você se divertiu e deu uma risada e sentiu a água na pele, e a sua opinião mudou. E o mar, também! O mar mudou. Viu só? Tem uma onda nova quebrando.

Então, entendeu, se agora você encostar na água de novo, não será igual. Pode ser parecido- pode também ser totalmente diferente- mas aquele momento preciso e o que ele fez você sentir não voltarão jamais, e você jamais será a mesma, você será nova com cada nova onda.

Um homem não pode se banhar duas vezes no mesmo rio, porque da segunda vez, o rio não será o mesmo… nem o homem.

Valorize seu passado porque ele a trouxe até aqui. Viva o presente, porque ele é tudo que há para viver. E acredite no futuro, Donatela, porque você tem futuro.

Você é o futuro.

E eu vejo você correr por entre as dunas com vento no rosto, quase tropeçando com a areia nos olhos, rindo alto e escalando as pedras como uma moleca, como a criança que sua mãe não pode ser. Você é a liberdade que o resto do mundo espera, sem saber. Ah, minha filha.

Quem ousaria machucá-la?

pedaços de cartas

05/08/2009 - Deixe seu recado!

E essa alma que não cala a boca! Que insiste em vir se esfregar contra a parte dentro do corpo, a escapar pelas boca, pelos olhos, pela ponta dos dedos. Eu entendo tudo que tu dizes, meu amigo, eu entendo que a vida seria até mais fácil. Sentar, acordar, digitar pouca coisa, simplesmente existir nos meus dias como nos dias de todos. Mas é que eu sou sempre privada desse sonho normativo e seduzida pela louca e discutível ideia do propósito. Se na prática o que eu faço não é muito diferente do que tu fazes- eu também sento, levanto, como, durmo, vou ao banheiro e assisto televisão se sobra tempo- em algum lugar ali no fundo e no meio existe uma grande diferença. A diferença é que a minha tal de alma tá sempre no cio. Não vai calar a boca, vai me enlouquecer essa desgraçada. E se eu queimar e me apagar, é o de menos.

Antes eu do que a alma.

♦♦♦

Um dia você vai ter que aprender a ter essa coragem. Coragem de admitir do que gosta, de quem gosta, quem é. Coragem para aceitar que o caminho sempre foi esse e que ele pode não ser fácil, mas é inevitável. Que você nasceu pra isso- e você nasceu pra isso, disso eu tenho certeza. Por mais tortuoso que o caminho seja, e será. Nós nunca nos propusemos a uma vida fácil, ou melhor, nós escolhemos o que é que nós queremos que seja fácil. Eu quero que seja fácil ir dormir com a consciência tranquila. Se pra isso o resto for difícil. Que seja.

Um dia você vai ter que aprender a se olhar no espelho e ver como é de verdade. E verá que isso é bom.

Eu espero ansiosamente por esse dia.

♦♦♦

Mas se amar é um jogo, como é que se mede os pontos? Com quem se está jogando, e quem é que sai ganhando? Qual a estratégia, blefe? Mérito? Você joga no blefe mas merecia ganhar no mérito.

Eu ponho a minha mão no fogo e o meu corpo no fogo. Ainda vou me queimar certo, mas pelo menos eu terei sentido o fogo com toda a fúria da minha pele em brasas.

♦♦♦

Não me ouça, Iago. São apenas pedaços de pensamento que flutuam sem muita certeza por essas ondas na minha cabeça. Não valem a tinta que gastam nem o risco que representam. Mas por favor, ignore o que eu acabei de dizer e ouça sim.

Se você não me ouvir, o que me resta?